V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE ANÁLISE DO DISCURSO (CIAD)

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Prezadas e prezados colegas,

Esta quinta edição do CIAD, realizada entre os dias 12 a 14 de setembro de 2018, será dedicada às relações entre discurso e verdade: Discurso e (pós)verdade: efeitos de real e sentidos da convicção.

Além da tradicional participação dos grupos de pesquisa em Análise do discurso, vindos de todo Brasil e do exterior, previmos para a discussão do tema de nosso evento a realização de mesas-redondas e conferências com especialistas nacionais e estrangeiros.

Participarão desta edição os professores Roger Chartier (Collège de France), Elvira Arnoux (Universidad de Buenos Aires), Tales Ab’Sáber (Universidade Federal de São Paulo),  Rosário Gregolin (UNESP -Universidade Estadual Paulista), Mónica Zoppi Fontana (Unicamp – Universidade Estadual de Campinas), Sírio Possenti (Unicamp – Universidade Estadual de Campinas), Jean Cristtus Portela (UNESP – Universidade Estadual Paulista) Geraldo Tadeu Souza (Universidade Federal de São Carlos) e Maria Aldina Marques (Universidade do Minho).

Tanto as mesas-redondas quanto as conferências tratarão das diversas relações entre discurso e verdade em diferentes campos dos estudos do discurso, em distintas condições históricas de produção e em diferentes âmbitos institucionais, a saber, a mídia, a política e o cotidiano, entre outros. Também serão abordados fenômenos nos quais se entrecruzam o discurso, a verdade e os protestos e manifestações sociais e ainda os recentes surgimentos de noções como “pós-verdade”, “fake news” e “fatos alternativos”.

Será um prazer recebê-los na UFSCar.

Até breve,

Comissão Organizadora.

 

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Discurso e (pós) verdade: efeitos de real e sentidos da convicção

Há relações diversas e fundamentais entre o discurso e a verdade. Ao longo da história, em condições de produção distintas, já se afirmou que a verdade existiria independentemente das coisas ditas; que estas últimas seriam entrave ou acesso à verdadeira essência dos seres e fenômenos; e, finalmente, que a verdade consistiria em construção histórica dos fatos, para a qual o discurso é decisivo. Mais recentemente, vimos multiplicarem-se as alegações de que os fatos não existem, de sorte que apenas haveria versões e interpretações alternativas.

Além disso, sabemos que em diferentes tempos e lugares, não são os mesmos campos e instituições de onde se emanam os efeitos de real e as convicções. Um único, mas profundo e significativo exemplo dessa transformação é o “desencantamento” do mundo ocidental, ocorrido na era moderna. Com ele, vimos a religião perder força como espaço praticamente exclusivo de produção da verdade, via reprodução da palavra de Deus, cedendo cada vez mais lugar aos dados e experimentos da prática científica.

No que se refere às tendências contemporâneas de se conceber as relações entre discurso e verdade, frequentemente elas são concebidas como um movimento libertário, uma vez que permitiriam que nos desprendêssemos de dogmas, ortodoxias e autoridades exclusivas. Assim, domínios e instituições, que, antes, nos guiavam com base em suas verdades fundamentais e na quase cega fé alheia, tornaram-se cada vez mais suscetíveis às nossas dúvidas e críticas. A religião, a política, a mídia e a ciência já não são mais do mesmo modo consideradas como fontes das quais brotariam a certeza dos fatos e os devidos caminhos a seguir. Com frequência e intensidade aparentemente inéditas, a crença e a confiança que nelas depositávamos passaram a ser ladeadas por ceticismos, suspeitas e, assim, talvez, por emancipações. O que não significa que estejamos diante de um fenômeno homogêneo e igualmente experimentado por sujeitos de classes e grupos sociais distintos, de ideologias diversas e inscritos em diferentes relações de poder.

Por outro lado, observamos que a crescente difusão das fake news e a emergência das noções de “pós-verdade” e “fatos alternativos” têm produzido efeitos bastante perversos. Retrocessos políticos e sociais, intolerâncias a comportamentos, adesões a preconceitos de classe e de gênero e difusões massivas de ideias e ações reacionárias ou populistas consolidam-se e expandem-se com força e alcance assustadores. Contribuem decisivamente para essa força e esse alcance a onipresença das redes sociais, seu uso constante e disseminado e suas interconexões com os veículos da mídia de diversos extratos e ideologias. Os resultados desse movimento na história já se mostram a olhos vistos: ataques às políticas afirmativas, aos programas de combate às desigualdades sociais e econômicas e às discussões sobre gênero e sexualidade; e ascensão de tendências fascistas de toda ordem, conduzindo líderes políticos de extrema-direita a conquistas eleitorais até recentemente inimagináveis na Europa e nos EUA, mas também no Brasil.

Nas diversas vertentes dos estudos do discurso, derivem elas da chamada AD francesa, dos trabalhos que se fundamentam no círculo de Bakhtin ou da Semiótica, de Greimas, entre outras, há relativo consenso sobre o funcionamento dos processos discursivos. Tais processos fazem com que as mesmas palavras, expressões ou proposições produzam diferentes efeitos de sentido, mas também fazem com que distintas palavras, expressões e proposições produzam os mesmos sentidos. Na esteira dessa reflexão, poderíamos entender que as diversas relações entre discurso e verdade, sejam elas afirmadas taxativamente, sejam objeto de crítica ou de adesão parcial, sejam ainda recusadas de modo absoluto, podem tanto libertar quanto assujeitar. Elas podem se inscrever em posições conservadoras e ensejar discursos reacionários e até fascistas, mas podem igualmente derivar de posicionamentos progressistas e produzir pensamentos, atos e palavras emancipatórios.